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Perdemos nossa bagagem



O que efetivamente pluraliza o ser humano? Que força concebe pessoas diferentes e únicas? Alguns profissionais defendem como justificativa a personalidade (para o psicólogo), a influência dos astros (para o astrólogo), vidas passadas (para os esotéricos) ou até mesmo o meio em que vivemos (para os antropólogos). Enquanto publicitário acredito, na verdade, em tudo isso somado a algo maior: nosso repertório, nossas referências, nossa bagagem.


Cada pessoa acumula elementos em sua bagagem do nascimento ao fim da vida. Todos os dias, nas mais diversas situações, armazenamos memórias e aprendizados, que refletirão em nossa criatividade para soluções de problemas que aparecem. Tanto para o meio pessoal como para o ambiente profissional. Geramos novas conexões entre assuntos distintos a cada sinapse inédita. Afinal, desenvolvemo-nos a cada novo pensamento.


Algumas pessoas são mais atentas às oportunidades de agregar conteúdos em sua bagagem. Qualquer forma de lazer, vivência ou cultura, pode ser visto como um novo item para as nossas malas. Estes itens podem decorrer da observação do comportamento de outras pessoas, como no convívio social. Por exemplo: visitando a casa de parentes e amigos, indo na feira, frequentando um clube, viajando, praticando esportes, tomando um chimarrão no parque ou ouvindo histórias dos nossos avós.


Existem também os itens que colecionamos de formas mais diretas, mais individuais e mais íntimos como lendo um livro, gibi, revista, jornal, blog; assistindo a filmes e séries, peças de teatro e musicais; ouvindo música; cozinhando; desenvolvendo um hobby; colecionando alguma coisa não convencional; visitando galerias de arte, museus e exposições.


Por acaso, falando em malas, quando viajamos e não levamos roupas o suficiente, adquirimos novas peças durante a estadia para resolver o problema. Parece que são assuntos diferentes, não é mesmo? Mas não é. Não contratamos profissionais quando temos problemas específicos que não sabemos resolver? Sabe o que está por trás disso? Compramos a bagagem de outra pessoa para nos ajudar. Compramos a experiência, o profissionalismo e a vivência que não temos.


O repertório que acumulamos é como se fosse o combustível para a mente. Algo como a gasolina é para o carro e o alimento para o corpo. Se o combustível for batizado, o desempenho do veículo será prejudicado. Quanto ao alimento, se for pouco nutritivo ou nocivo, o corpo adoece. Para manter a mente sadia e criativa, precisamos de boas referências. Não é de graça que os clássicos são clássicos.


A tragédia que ocorreu no último domingo (02.09) no Museu Nacional da Quinta da Boa Vista, espaço vinculado à Universidade Federal do Rio de Janeiro, extraviou uma quantidade de malas que nunca mais serão possíveis de reaver. Nunca mais serão agregadas as experiências visuais e históricas a nenhum brasileiro. Nunca mais os 20 milhões de objetos catalogados farão parte do nosso repertório. Nunca mais poderemos visitar as dependências de uma residência que pertenceu a família imperial brasileira. Nunca mais a ciência exibirá o mais antigo fóssil encontrado na América Latina com 11.500 anos. Nunca mais teremos acesso ao maior acervo de objetos egípcios na América Latina…


É como se tivéssemos feito a maior e mais longa viagem de nossas vidas, onde agregamos muitas lembranças, histórias, experiências, sensações, um repertório maravilhoso e, simplesmente, a companhia tivesse perdido nossa bagagem e nunca mais encontrado. Sem dar explicações.



Byron Andrew

Sócio da Carpes


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